INVESTIMENTO ANJO: BOLSO, MENTE E CORAÇÃO

Postado em 10 de dezembro de 2019 /

A educação financeira que recebi recomendava poupar o que pudesse e investir com o menor risco possível (poupança). Ao começar a ganhar meu dinheiro, passei a estudar mais sobre o tema e ensaiar pequenos passos rebeldes como, por exemplo, tirar o dinheiro da poupança e investir na renda fixa. Nunca vou esquecer desse dia. Morria de medo de perder dinheiro e ainda ouvir meu pai dizer “tá vendo? Eu falei pra você, com dinheiro não se brinca!”

Muitos anos se passaram e hoje, depois de erros e acertos e muito aprendizado – sobre investimentos e sobre o meu comportamento investidor – eu tenho uma carteira bem diversa, com finalidades específicas para cada tipo de investimento. Mas todos eles com o objetivo único de fazer o dinheiro render. Exceto um. 

 

Eu invisto em startups, como investidora anjo. E esse é um tipo de investimento que não se justifica se for apenas para fazer o dinheiro render.

Costumo dizer que uma investidora anjo é alguém que coloca uma parte do seu bolso, do seu coração e de sua mente no negócio de outra pessoa, na expectativa de ter retornos em cada uma dessas três dimensões.

Eu comecei a me interessar por esse assunto como empreendedora. Há alguns anos deixei uma carreira corporativa bem sucedida para empreender. Como ex-executiva e então empreendedora eu pensava continuamente na nossa estratégia de financiamento, ou seja, de onde viria o dinheiro para investir na empresa?

 

Ao longo dessa experiência e depois, como mentora e investidora, eu pude conhecer as formas mais comuns de financiamento de startups: 

(1) Recursos próprios: os sócios investem capital para início da startup e a partir de um determinado momento a empresa se financia com os próprios resultados. Costuma-se chamar de bootstrapping. O financiamento é limitado pela capacidade financeira dos sócios e pela capacidade da empresa em gerar resultados rapidamente, ou seja, atingir o breakeven e começar a produzir lucros suficientes que permitam investimento. 

(2) Investimento anjo: geralmente uma pessoa que conhece o negócio ou mercado em que a startup atua. Muitas vezes é um (ex-) executivo daquele setor, uma pessoa que tem contatos e pode abrir portas e tem interesse em investir seu próprio dinheiro. O anjo traz, então, capital, experiência e conexões, tipo de investimento que chamamos de smart money. 

(3) Fundos de venture capital: investem dinheiro de outras pessoas (os cotistas dos fundos) e por isso conseguem um volume de investimento mais elevado para a startup. Poucos são os que atuam no early-stage, pois é mais difícil investir dinheiro alheio em uma fase de risco tão alto. O relacionamento do empreendedor nesse caso é com o gestor do fundo e não com os investidores.

 

Com base na minha vivência e de meus colegas empreendedores, percebi que ou as startups tentavam sobreviver com recursos próprios – o que não resulta para qualquer tipo de startup – ou tentavam investimento com VCs. E isso significava muito tempo investido, pouco conhecimento de como funcionavam os VCs e muitos deals não fechados. Um processo muito frustrante para quem precisa usar seu tempo de forma eficiente. 

O investimento anjo naquela época era uma questão de sorte. Sorte de conhecer alguém da área, que se interessasse pela startup, que tivesse capital para investir, topasse o risco do investimento e tivesse disponibilidade e possibilidade para ajudar. Era preciso muita sorte! 

Quando passei a mentorar startups individualmente ou em programas de aceleração, eu conhecia muita gente interessante, com negócios ou ideias incríveis e que precisavam de ajuda. Percebi que poderia ajudar mais e gostaria de me comprometer mais com a empresa. Meus investimentos já eram bem diversificados, com uma parcela da minha carteira alocada em ativos de alto risco. Então essa questão de mindset para o risco não era um problema.

Mas tinha muitas perguntas: como identificar uma startup na qual acredite e que possa se beneficiar da minha experiência, networking e investimento? Como avaliar? Quanto investir? Quais os instrumentos contratuais para investimento anjo? Como acompanhar depois?

 

Após muitas conversas identifiquei as possibilidades para investir como anjo:

1 – Individualmente em uma oportunidade: um (ex-) empreendedor ou (ex-) executivo conhece uma startup que precisa de investimento. Eles conversam, chegam num acordo e celebram o deal. Nesse caso, desde a decisão de investir até a contrato de investimento e depois, o acompanhamento da startup e avaliação sobre a performance do negócio, tudo é feito pelo investidor anjo, sozinho.

2 – Coletivamente em uma oportunidade: um grupo de investidores anjo avalia coletivamente algumas startups e os que se interessarem por uma específica formam um grupo, que negocia com a startup, divide o investimento entre os membros. O grupo então se ajuda na avaliação e negociação do deal e depois se organiza para apoiar a startup.
Aqui o risco é diluído com outros anjos, mas apenas naquela oportunidade. Se o anjo quiser diversificar seus investimentos, pode compor um grupo com outros três para investir em uma startup e com outros oito para investir em outra. Mas terá que gerir essas interações.

3 – Coletivamente em portfólio: um grupo de investidores decide somar suas potencialidades de capital e investir em um portfólio de startups. Avaliam e decidem sobre os investimentos em conjunto. Cada startup aprovada é investida pela sociedade e não por cada anjo. Todas as etapas, desde o screening de startups até os contratos de investimento, e depois o acompanhamento das startups, negociação de follow-ons e exits são feitos pelo grupo.

Hoje invisto coletivamente em portfólios. Além da diluição de risco há um outro fator muito importante. Somos uma comunidade: trocamos, aprendemos, ensinamos, compartilhamos informações, fazemos eventos de encontro presencial para falar de negócios, mas também da vida. Empreendedores que querem dinheiro de qualidade para financiar suas startups. Anjos que querem ter retorno financeiro contribuindo para o desenvolvimento dos ecossistemas de inovação com seu capital intelectual, social e profissional e aprendendo com os protagonistas, os empreendedores.

Cintia Mano é investidora anjo na REDangels e na COREangels Atlantic.